Falência Múltipla

Aos poucos, ou tantos, a sociedade brasileira testemunha sua própria falência moral. É uma falência múltipla, contaminando diversas camadas ou pela ignorância ou pela má-fé de se aproveitar desta ignorância em estado latente. Constante neste país.

Neste espaço dedico agora este protesto. É diferente do que costuma estar escrito aqui, porém a revolta já impera a semanas e é necessário dizer algo. Mesmo que para poucas ou ninguém. Essas poucas ou ninguém, podem pensar que não estão sós. Que não são excessões em pasmar pela situação que acontece agora.

A mais nova doença do país atende pelo nome de ''saca-rolhas'' e ''latas de lixo". Quase R$ 900,00 em um e R$ 1.000,00 no outro. Sendo que foram compradas três latas de lixo, provavelmente banhadas a ouro. É incrível que o lixo, literalmente, tenha um tratamento melhor que maior parte do povo deste país. Quem não gostaria de ser tratado em um hospital por um serviço que valesse R$ 3.000,00? Ou mais, ganhar um salário mínimo deste tamanho, sem se preocupar com o básico pois já estaria garantido pelo Estado?

Esses artigos de luxo foram adquiridos pelo reitor da Universidade de Brasília. Temos a Educação do Brasil entre as piores do mundo, mas vinhos com certeza serão abertos da melhor maneira possível no apartamento recém decorado deste "humilde" servo do povo. Esse é o governo do "Pai dos Pobres". Que não deseja, de maneira alguma, que sejam revelados os gastos efetuados pelo cartão corporativo da Primeira-Dama. Afinal, ninguém entenderia gastos aos milhares em clínicas de botox, comésticos e cirúrgias plásticas. Afinal, o "Pai dos Pobres" luta pela melhor qualidade de vida dos brasileiros, começando pela dele, é claro.



Escrito por Ademir Savóia às 13h22
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Sem fim para os livros

Estava lendo um livro de contos do Stephen King. Grande autor de histórias de terror, como "O Iluminado", até dramas, como "Um sonho de liberdade". Citei as melhores adaptações, em minha opinião, para o cinema. Qualquer pessoa que assistiu "O Iluminado" irá ter pesadelos imaginando o Jack Nicholson abrindo sua porta com um machado, colocar sua cara maníaca dentro do recinto e em palavras insanas exclamar: "Here's Jooonhyyyy". Eu gosto de falar isso quando acontece algo inesperado, que dá susto. Bem apropriado, eu diria.

De qualquer maneira, esse livro não terminei ainda, mas já se mostra bem interessante sendo uma coleta de contos feitos por King (o livro se chama "Tudo é eventual"). Raras são as vezes que leio introduções, mas por coincidência ou não, acabei lendo esta em que aborda suncitamente o acontecimento literário de uns 7 anos anos. Quando o livro finalmente se tornaria obsoleto, substituído pelo avançadíssimo livro digital, lido no microcomputador. Isso não aconteceu, ainda vejo todos lendo livros, achando inclusive melhor que o filme, e livrarias abrindo e aumentando. Falo das Mega Stores, tão fácil de investir umas horas. Não digo "perder", pois tá aí um tempo que não é perdido.

E por que será? King diz em sua introdução, que nada melhor que um chá quente, sentado em sua poltrona favorita em uma fria noite de inverno, acompanhado de um livro. Essa é uma das razões que eu gostaria que fizesse mais frio nesse país tropical. O clima temperado é tão convidativo para se ficar aconchegado em seu lugar favorita e viajar tão distante em tempo e espaço ao se deliciar por páginas e mais páginas escritas. Isso levando em consideração que eu detesto chá. Água com gosto. E não tenho uma poltrona favorita, mas seria uma ótima peça. Estaria armado da poltrona, uma coca zero (delícia) e um livro. Posso ir para qualquer guerra.



Escrito por Ademir Savóia às 14h40
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Especialistas do momento

Somos todos especialistas do momento. Em qualquer assunto. O que quero dizer por especialistas do momento? Qualquer assunto, algum palpite será pronunciado, um argumento apresentado e talvez uma defesa de tesa efetuada. Sejam por citações de leituras recém feitas, boatos ouvidos em um elevador cheio para o trabalho ou suposições feitas com base no seu raciocínio lógico (sendo "lógico" um estado definido pela própria pessoa). O assunto? Qualquer que estiver sendo tratado no momento. Especialistas do momento.

Não importa que seja sobre a nova técnica quântica, utilizando nano-micro-parcelas-sub-atômicas para operar unha encravada, com certeza a pessoa terá uma opinião. Todos teremos. "Ah, o dedão tem bastantes terminações nervosas, eu sei disso porque o cara que tatua falou que o pé tem bastante terminações nervosas, então o dedão deve ter também. Então acho que deve doer mesmo assim". "Acho que a nanotecnologia em si não pode conviver com pé-de-atleta, comum nos pés de esportistas, então acho que a unha encravada não será solucionada para os esportistas".

Nada como um exagero para se deixar claro em o que se quer dizer. Mas não se afastam tanto disso. Opiniões médicas surgem às dúzias. Há um médico em cada um, só não praticamos medicina porque não temos diploma. Culturas diversas então... explicar o porquê da tribo pigméia do norte do Butão serem canibais ou como a culinária européia é fruto da escassez histórica, desde tempos medievais. Sem falar nos comentários em filmes, separando a ficção da realidade, ou se é plausível ou não. Meteriologia é mais exata nas conversas do trabalho do que a anunciada nas previsões dos telejornais. Tensões externas ganhariam novos horizontes de compreensão se levasse 10% dos frequentadores de barzinhos para a ONU.

E o mais incrível é que ainda sobra tempo para ser especialista naquilo que importa e que garante o ganha pão.



Escrito por Ademir Savóia às 16h16
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Há algo de errado

É fácil de perceber que há algo de errado. Ou quando tudo está errado. Isso acontece quando alguém que faz algo certo é taxado de louco, interesseiro ou trouxa. "Honra" virou palavra de tataravô, quando lá nos confins temporais brigavam de espada para defender essa tal honra. Ou virou palavra de guerra, pois só os militares a valorizam e mesmo assim só na hora da derrota e de morrer com honra. Ou no futebol, quando é uma goleada e o gol de honra.

"Respeito" então, nem se fala. Quando alguém pede o tal do respeito, é porque tá fazendo birra ou exagerando. E daí que o carro parou em cima da faixa de pedestre ou avançou o sinal vermelho? Esse negócio de respeito é para os trouxas e o mundo é dos espertos. Com certeza não é dos pedestres. No entanto, esse mesmo motorista que furou o vermelho acha um absurdo o que fazem lá em Brasília. Agora o infrator virou vítima. Mas os infratores do Distrito Federal em nada fazem para reparar-se. E não há multa para eles.

Alarmante o futuro da nação. Será criada a Faculdade do Jeitinho. Afinal, se queremos que todos os brasileiros tenham iguais oportunidades, temos dar a todos a chance de saber se aproveitar do próximo. Este é o décimo-primeiro mandamento: Aproveitarás do próximo. E o brasileiro se isolará do mundo mais culto, onde há espaço para infrações, porém com severas punições. Mas a nação estará limpa: não haverá mais loucos, interesseiros ou trouxas. Amém. 



Escrito por Ademir Savóia às 21h22
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Quanto mais inútil, mais se lembra.

Estava a matutar com meus pensamentos, ou pensatas resultantes se preferir, em como lembramos do inútil. O inútil que eu digo não é de uma inutilidade total. Quem sabe, em um futuro não muito distante, a informação guarnecida seja de algum uso. No entanto, até lá, fica o questionamento do porquê nos lembramos de coisas não tão úteis no momento.

É lembrar das letras de todas as músicas que você ouve e conseguir cantar junto com a rádio e ouvir a indagação da companhia de como consegue guardar tantas letras. Também lembrar do nome do vilão da novela de 10 anos atrás, isso porque sequer assiste novela. Mas martelaram tanto o nome, repetiram tanto a cena até no jornal das oito, que o fulano marcou e ocupou um espaço do cérebro. E por aí vai. Talvez seja o fluxo inútil de informação que nos faz substituir espaços vazio para ocupados por besteiras.

Quando precisamos lembrar do nome daquela pessoa que conheceu no trabalho, uma pessoa importante, força-se a cabeça e nada. Mas o nome do vilão com certeza se lembra. É tanta informação repetida que acaba ficando as menos úteis realmente. Afinal de contas, para quê precisa-se de canais 24hrs de notícia? Coisas que poderiam ser transmitidas objetivamente em 3 minutos perduram por meia hora. Logo darão aulas de teatro para os repórteres para ensinar a arte de representar o impacto da notícia e enrolar mais alguns minutos. Afinal, são 24hrs que precisam ser preenchidas! E porque não alguma revisão do que aconteceu no dia anterior? Tem que ser garantido que daqui 10 anos haverá uma parcela dos telespectadores que lembrarão do nome do vilão.



Escrito por Ademir Savóia às 15h52
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Escrudêncio

Escrudêncio adorava tudo que era feio. Começando pelo próprio nome. Não havia sido o dado pela mãe, Hugo, em homenagem ao vô que morreu na Itália quando lutava na guerra. Mas achava seu nome muito bonito, muito não natural. Assim que teve poder de mudar, foi ao cartório e renomeou-se Escrudêncio Valiassi. Combinava mais com seu estilo de vida. Cercado pela feiura.

As namoradas seguiam a filosofia. Cabelo ruim, cabeça vazia, rosto de que caiu do décimo andar de cara no chão ou faltando algo. Sem dentes eram as mais desejadas. A sua casa parecia feita sob medida para filme de terror. Já houve diretores que cogitaram filmar produções usando sua moradia de locação. Mas Escrudêncio não quis. Fama não era nada feia.

Quem conhecia Escrudêncio à primeira vista não entendia. Ele então explicava: é da natureza humana ser feia. Tudo que a cerca de belo é apenas mentira para esconder sua realidade nada agradável. O homem faz isso porque não agrada ver a feiura que ele realmente é. Violência, corrupção, vantagens tiradas sobre outras pessoas e guerras. No entanto, Escrudência admirava a feiura de tudo, pois era o que mais chegava perto da realidade da humanidade. Era só um jeito diferente de celebrar a existência humana. Aí as pessoas achavam que até fazia sentido.

Chegou então o dia que Escrudêncio concluiu ser a hora de morrer. Não podia ser natural, pois nada tinha de feito. Sereno demais. Falsa. Contratou e combinou a hora e local certo. Foi amarrado ao carro pelo cinto de segurança, arrastado por 10 quarteirões em uma suposta tentativa de assalto. Como estava vivo ao fim do percurso foi executado com dez tiros.  Como Escrudêncio esperava, todos ficaram chocados com a realidade da humanidade. Não queriam ver que sempre foi assim. Mas após ocupar os jornais por alguns dias, sabia que logo seria esquecido.



Escrito por Ademir Savóia às 15h59
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Preto

Tudo é preto. O dia está preto. Paira sobre ele uma nuvem preta. São assim as tarjas assassinas. Tarjas pretas. Matam e não curam. Deviam sufocar os que as receitam, pois são felizes demais. Não trazem felicidade e não espatam a tristeza. Não espantam o preto. Preto é a alma ferida, que sangra dia-a-dia. É a escuridão que envolve, mesmo com forte sol que tudo ilumina. Tudo é preto. Tudo está preto.

Preto é como ficará, pois o caixão a luz selar irá. Esconde a beleza que jamais será vista novamente. Serena, 20 anos menos velha. As preocupações se foram. A depressão não existe mais. Depressão assassina. Depressão que mata. Depressão como as tarjas pretas. Tarjas assassinas. Como a obscura decisão de tudo para trás deixar. Agora se deita ao redor de flores e tens a beleza eterna. Beleza que ainda sim faz sofrer. Faz chorar. Faz perder o controle de si. Preto é tudo que se vê. Os olhos dos que assistem nada vê. Não estão lá. São ocupados pela perdição. Incompreensão. Inexplicável. Inacreditável.

Tudo está preto. O céu está preto. O coração está preto. A vontade se entregou em preto.

Preto. Preto. Preto...



Escrito por Ademir Savóia às 14h36
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O curandeiro da dor

Havia sido uma dádiva que recebera de não sabe onde. Uns diziam Deus, outros protestavam pois a divindade não colocaria tamanho poder na mão do homem. De qualquer maneira, o antes artesão se tornara o curandeiro da pequena vila. Sua esposa e filho estavam cheios de orgulho. Pudera também! O curandeiro todos atraía para aplicar seus poderes milagrosos.

De tudo aparecia. Desde dor no dente até câncer. O processo era simples: a dor era vista pelos seus olhos como uma mancha negra na alma da pessoa. Ele enxergava essa mancha, então a tocava e a mancha era atraída para ele. A doença ia junto. Para dentro do curandeiro. Ele sentia está dor e a noite pedia para que fosse embora, outro processo bem dolorido. Mas estava pronto para o dia seguinte.

Desde que o dom começara ele passou a enxergar uma mancha no mundo. Parecia uma nuvem fina, pouco acima dos telhados. Era a dor do mundo. Resolveu que curaria o mundo, mesmo que absorver tamanha dor poderia enlouquecê-lo.

Um dia, avisou a esposa e filho que não atenderia. Se isolou em um lugar distante da vila e lá ficou. Ergueu os braços e atraiu toda nuvem negra. Quase ficou rouco de tanto berrar. Que dor sentia. Deitou-se e lá ficou, implorando para a dor ir embora. Foi. Alívio. No dia seguinte, o sol já não revelava mais a tal nuvem, mas algo havia mudado. Todos pareciam fazer nada. A esposa e filho não saiam do lugar. O povo da vila não estava interessado em continuar. Para quê o esforço? Soube que o mundo todo estava na mesma. Parecia que não havia mais incentivo para o homem. As dificuldades tinham acabado, a vida não tinha mais graça. Não era mais um desafio. Refletiu e percebeu sua culpa em tudo. Tomou coragem e cometeu o crime: matou sua esposa e filho. Foi um choque. Tantos choraram e se desesperaram. Outro choque. O mundo voltou a ser o que era. E o homem voltou a viver.

 



Escrito por Ademir Savóia às 19h00
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A Carteira

Orlando tudo mantia na carteira. Tudo em um sentido dos tipos de habitantes de sua fiel portadora. Para onde ia, sempre levava. Tudo bem, para onde vamos, sempre as levamos. Quando não as levamos, percebemos que as esquecemos e correndo voltamos. Porém Orlando designava a carteira como algo além do que foram determinadas para serem feitas. Não era somente a guardadora de dinheiro ou documentos.

Também guardava memórias. Lá estava a entrada do primeira cinema que assistiu com Tatiana e o ingresso para o primeiro jogo do Palmeiras. Guardava sua paleta de violão, nunca sabia quando apareceria um para tocar e caso tivesse cortado as unhas, não poderia tocar com o volume que desejava, tinha que estar preparado. Tinha lá um papel já velho, amarelado e amassado. Um número de telefone anotado, mas Orlando não se recordava de quem era. Não jogava fora pois poderia precisar um dia ligar, talvez em alguma situação desesperadora. Vai que não era a linha direta com o Céu?

Por fim, mantinha um papel em branco em uma dos "plastiquinhos" para documentos. Estava em ótimas condições e sempre que começava a aparecer sinais de envelhecimento ele trocava. "Para quê?", perguntavam para Orlando e o mesmo justificava:

- Ora, caso eu cruze com alguma celebridade, eu vou precisar de algum papel para receber um autógrafo! Tenho que estar preparado pra isso, pois não acho que a Tatiane irá gostar de ver escrito "Com amor, Mel Lisboa", atrás da foto que deu para mim.



Escrito por Ademir Savóia às 21h19
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Para poucos

Para poucos ou nenhum, esta é o primeiro post de Ademir Savóia.

Apreciem com moderação!



Escrito por Ademir Savóia às 15h27
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